Da Pesca à Escola
Projeto de Extensão

Navegando no universo da arte da carpintaria naval no nordeste paraense, muito temos a aprender. E como não poderíamos guardar esses conhecimentos em caixinhas fechadas, criamos o coletivo Mexericos na Maré, que vem desenvolvendo ações de difusão e reconhecimento desses importantes, porém ameaçados patrimônios da cultura paraense: o saber-fazer dos mestres carpinteiros e o conhecimento relacionado aos estaleiros artesanais. 


O nosso coletivo tem se empenhado em proporcionar visibilidade aos mestres artesãos e seus saberes, por meio da produção de materiais audiovisuais, impressos e digitais, tais como documentários, podcasts, cartilhas, folders, banners, exposições fotográficas e oficinas. O principal objetivo destas ações é contribuir para a difusão do patrimônio cultural do Pará, especialmente àquele referente ao universo da pesca. A ideia é que este fascículo, que faz parte da coleção DOS ESTALEIROS À ESCOLA, possa fomentar ações educativas deste universo, como visitas guiadas aos estaleiros.


Nossa missão é compartilhar estes relevantes conhecimentos. Aproveite este mapa cultural-educativo e conheça um pouco mais sobre valiosos elementos da cultura paraense: os estaleiros artesanais e seus mestres carpinteiros.

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Mestres e Estaleiros

Nosso projeto de estudo sobre a carpintaria naval e os mestres artesões amazônidas identificou que a atividade de carpintaria naval envolve uma considerável quantidade e diversidade de trabalhadores, como mestres carpinteiros, ajudantes, calafates, fibradores, eletricistas, mecânicos, pintores e abridores de letras. Embora seja uma atividade de relevância nacional, principalmente nas regiões de elevada produtividade pesqueira, como a Amazônia, há pouco reconhecimento e até certa invisibilidade da atividade e dos profissionais envolvidos. Pensando nisso, nós pesquisadores(as) da UFPA, temos tentado compreender melhor as relações sociais presentes nesta atividade. 


Assim, por meio do projeto Navegar é Preciso, desenvolvido pelo LABPEXCA, buscamos estudar a carpintaria naval sob vários olhares. Desde 2014 estamos realizando visitas e entrevistas com os trabalhadores que dedicam suas vidas ao ofício de construir embarcações de madeira, principalmente voltadas à pesca nas cidades de Bragança e Augusto Corrêa.

As conversas com os carpinteiros navais nos revelam informações valiosas, ricas em sabedoria e experiência. Nelas percebemos a existência de hierarquias dentro dos estaleiros: o mestre carpinteiro se apresenta como figura central no processo produtivo devido a experiência e funções desempenhadas, o que exige elevada responsabilidade. Os outros profissionais possuem atribuições específicas que não são desmerecidas nesta rede de diferentes níveis de funções e responsabilidades.

 

Também realizamos um mapeamento participativo com a intenção de identificar e localizar os estaleiros artesanais existentes em Bragança e Augusto Corrêa. Identificamos 18 estaleiros que estão presentes no mapa ilustrado, representado neste material.


No segundo fascículo você conhecerá as estruturas externas e internas básicas de uma embarcação, suas funções e algumas madeiras utilizadas. No terceiro fascículo são exibidos alguns tipos de embarcações utilizadas nesta região. 

Profissões e funções

Ajudante de carpinteiro
Auxilia o mestre carpinteiro. Ajuda carregando ferramentas, madeiras e materiais de apoio para o bom andamento dos serviços do carpinteiro. Em geral, com o tempo e experiência, se tornam mestres carpinteiros.

Calafate
Trabalha nos serviços de reparo das embarcações, faz a calafetagem (impermeabilização das fissuras do barco), tirando os vazamentos e goteiras. Conhecidos também como reparadores de brecha. Às vezes os calafates começam como emassadores (ajudante de calafate) e, através da experiência e aprendizado adquiridos, se tornam calafate profissional.

Pintor
Trabalha diretamente na pintura da embarcação. Conhecem as tintas mais apropriadas para cada parte do barco. Utilizam suas habilidades para dar estilo e ornamento às embarcações.

Eletricista
Faz as ligações elétricas internas e externas de uma embarcação. Normalmente são profissionais formados em cursos técnicos.

Mecânico
Trabalha na parte interna da embarcação consertando os motores da mesma. Conhecem todas as marcas de motores e apresentam habilidade para desmontar e montar novamente o motor de uma embarcação.

Abridor de letra
Artista responsável por pintar o nome do barco. Possui habilidade e delicadeza no manuseio de pincéis e tintas para mesclar cores e formas na pintura do nome escolhido pelo proprietário da embarcação.

Fibrador
Responsável pelo revestimento de partes das embarcações com fibras.

Mestres Carpinteiros

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Mestre Mário
Bacuriteua, Bragança (Pará)
Mestre Mário é sobrinho de Módico dos Remédios, famoso mestre carpinteiro naval de Caratateua, mas não foi apenas do tio que ele herdou o ofício, como ele mesmo nos conta:

“Na minha família tinha, na família de minha mãe, família do Remédio, todos eles eram carpinteiros (...) eu trouxe essa herançazinha de trabalho, toda parte que ter Remédio, sempre ter carpinteiro”. 

Ainda criança, brincava de fazer barco de miriti usando espinhos de tucum como prego. Trabalhou com o pai na pesca, mas a cabeça e as mãos eram boas mesmo para construir barcos. A primeira canoa, fez para um cunhado, depois fez outra para o pai, outra de novo e não parou mais “uma profissão que eu abracei, né, gostei e tenho prazer (...) a gente ter que procurar melhorar, procurar melhor jeito de trabalhar, isso aqui é um trabalho, um trabalho pesado”. Apesar de ter passado dos oitenta anos e com a saúde debilitada, não consegue ficar parado, enquanto seus filhos tocam a oficina e cuidam da construção das embarcações maiores, na beira do rio Caeté, em frente a sua casa, Mestre Mário dedica seu tempo à confecção de perfeitas miniaturas de barcos, cujos desenhos conhece como poucos. “Esse é o passatempo do papai, se ele parar de fazer isso ele adoece”, explicam suas filhas, Glória e Regina Lúcia.

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Mestre Waldemar Glória
Augusto Corrêa (Pará)
Original de Nova Olinda, mestre Waldemar Glória aprendeu a ler com a mãe aos sete anos, aos treze fez sua primeira canoa, como ajudante. Trabalhou como pescador, agricultor, ambulante e político. Aos trinta anos deixou todas as outras atividades para se dedicar exclusivamente à carpintaria naval e declar: 

“O pouquinho que eu tenho, quem me deu foi a carpintaria, a minha profissão”.

Com mais de sessenta anos de experiência, há cerca de vinte anos está à frente de seu próprio estaleiro, localizado em Augusto Corrêa. Consciente das dificuldades que os trabalhadores da carpintaria naval enfrentam, defende uma melhor organização da categoria e é a favor da instalação de uma escola de carpintaria naval que priorize a capacitação de jovens da comunidade “Os meninos que estudam... conversava com os pais, aqueles que quisessem... se ele estuda de manhã, de tarde vai pra lá, se estuda de tarde, de manhã ele ia... vai pra lá e aprende o ofício”. Mestre Waldemar, respaldado por seu domínio técnico, orienta os serviços no estaleiro e se orgulha por acompanhar a evolução na carpintaria naval, “tem que ter modernidade, se não, não vai adiante (…) a madeira vai ficando difícil, mas os barcos não vão se acabar”, diz o mestre que antigamente trabalhava em barcos a vela e acompanhou a instalação dos primeiros motores em embarcações na região.

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Mestre Nonato Assis
Augusto Corrêa (Pará)
Mestre Nonato Assis aprendeu a fazer canoas com o pai, a primeira fez para o irmão. Veio a trabalhar com Mestre Waldemar Glória e hoje se dedica à construção de barcos em seu estaleiro, às margens do Rio Urumajó. 

“Me criei dentro de embarcação, conheço barco de pequeno a grande, isso ajuda a entender de embarcação, porque eu já pesquei no alto mar e já pesquei dentro do rio, conheço a pesca e isso me ajuda nas embarcações.”

Dos tempos de pescador, aprendeu a função de cada parte do barco e as adaptações necessárias para navegar em águas mansas e em águas mais brabas, como as da região do salgado. Conhecedor das estruturas dos barcos nordestinos, mescla técnicas paraenses com aquelas utilizadas principalmente no Ceará e Rio Grande do Norte, sempre em busca do melhor desempenho das embarcações que chegam a comportar cinquenta toneladas de pescado. Quando perguntado sobre as técnicas que utiliza para armar barcos, ele relata que envolve curiosidade e investigação “eu trabalho desde criança e a gente vai descobrindo, quando tem vontade de descobrir” e explica que sente falta de cursos voltados para sua área, atribuindo a qualidade de seu trabalho a experiência prática “sou eu que faço os desenhos, armo o barco, encaverno (...) a gente aprende com o tempo de trabalho, acredito que quem estudar, se estudar, vai descobrir; eu não tenho estudo, foi na prática mesmo”, diz o mestre.

Mapa "Mestres e Estaleiros"

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FICHA TÉCNICA

Autoria
Larissa Melo dos Santos
Roberta Sá Leitão Barboza

Edição de texto
Larissa Melo

Revisão de texto
Myrian Sá Leitão Barboza
Célia Fernanda Lima Sanches

Projeto Gráfico e Diagramação
Larissa Melo

Cartografia
Andréa Porto

Ilustrações
Lelo Alves

Fotos
Acervo Coletivo Mexericos na Maré
LABPEXCA
Myka Melo

Renato Chalu
Lana Melo

Execução Técnica
(Coleta de informações)
Joerbt Franco Ribeiro

Carmem Antonieta Trindade da Silva
Cristiano Mateus da Silva Oliveira
Elizeu Ferreira Assis
Roberta Sá Leitão Barboza
Adrielle Regina Miranda
Kacia Carlos de Souza